Sobre iglus e cesarianas – Relato do meu parto

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A forma com que os esquimós constroem suas casas sempre me intrigou. Na minha cabeça infantil, não entendia como uma casa feita de neve poderia de alguma forma protegê-los do frio. Dentro dos iglus, a temperatura é tão estável que pode-se ficar até nu, pois os blocos de gelo ao invés de resfriarem, isolam seu interior. Mas isso foi algo que descobri depois de ter crescido…

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A manhã do dia dois de outubro de dois mil e treze estava nublada. Meu organismo não reage bem em noites que antecedem grandes acontecimentos e sendo assim, estava sem dormir direito. Levantei bem antes que o necessário, olhei para o céu cinza que emoldurava o pico do Jaraguá e pensei: “É hoje!”. Tomei banho, sequei os cabelos e fiz uma maquiagem. Achei que poderia me preocupar com essas coisas durante o dia, mas minha irmã já havia me antecipado que depois que eu me internasse, não poderia ficar saracutiando pelo hospital com paletas de sombras. O Douglas é tranquilo e foi uma luta acordá-lo. Precisei lembrá-lo: “Levanta que hoje você vai ser pai!”. Minutos depois, a Keila chegou. Estava combinado de ela nos levar até a maternidade. Tomamos um café e eu caprichei na dose, afinal, me foi pedido um jejum de 8 horas, ninguém merece!

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Conferi as malas e fomos. Eu estava tranquila e eles aparentemente, também. Chegamos na maternidade antes da hora e fizemos o procedimento de internação. Este, demorou um pouco, pois a secretaria da minha obstetra havia solicitado a cirurgia em outra maternidade, vai entender! Por fim, tivemos que assinar um documento afirmando que arcaríamos com as despesas caso o convênio não “entendesse” a confusão. Assinei morrendo de medo só da hipótese de pagar aquele valor. Como é caro pra nascer neste mundo!

Entrei em uma sala  de triagem que foi uma divisora de águas. Se eu estava tranquila até ali, com meus cabelos soltos e vestidinho preto, tudo mudou quando eu coloquei aquela roupa cirúrgica e saí de cadeira de rodas. Agora a brincadeira ficou séria, pensei! Tive medo. Da dor, da anestesia, do desconhecido… Me despedi do meu marido e pensei que só nos veríamos de novo depois de sermos três.

As enfermeiras me explicaram tudo que iria acontecer e me levaram para a sala de pré-parto. Foi ali que passei meu dia, na turma da cesariana. A galera do parto normal estava na mesma sala, mas uma cortininha nos impedia de ver suas caras de sofrimento, só conseguíamos ouvir os choros e gritos o que me fez admirar ainda mais a garra delas. Eu queria ser dessa turma, mas a hipertensão me impediu de conhecer a maternidade na íntegra. Parir um filho naturalmente deve ser pleno!

Fiquei ali o dia todo, monitorando o bebê e tomando um antibiótico que queima ao entrar na corrente sanguínea. Esqueci o nome do malvado… Conheci a história das outras gestantes mas evitei ficar falando, pois estava com uma sede de lascar! Minha GO apareceu no começo da tarde, conversamos e ela me acalmou. Ela é durona, mas estava amorosa naquele dia, graças ao bom Deus! Ela disse que apesar de eu ter sido a primeira grávida a internar, teria de passar uma gestante na minha frente, pois o bebê desta estava com os batimentos cardíacos fracos. Não liguei e fiquei até feliz, pois assim minha irmã que não conseguiu sair mais cedo do trabalho, poderia chegar a tempo na maternidade.

Eu estava deitada e uma enfermeira disse, é sua vez. Não consigo lembrar se me levaram na própria cama ou se fui em cadeira de rodas. Minha cabeça estava a mil, não parava de orar mentalmente, acho que oralmente em alguns momentos, mas os enfermeiros não ligam para esquisitices das pré-parturientes.

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Quando cheguei na sala cirúrgica, a equipe se apresentou e começou a preparação. Ver todo aquele “maquinário” e agulhas não é nada acolhedor. Me pediram para sentar bem curvada e perguntaram se eu já tinha tomado injeção na espinha. Diante da minha negativa, um médico segurou meus ombros bem forte. “Putz, vai doer”, pensei. E realmente, foi ruim. Senti aquela pressão três vezes e o corpo amolecendo em segundos. Eles me deitaram e eu entrei em pânico ao constatar que poderia movimentar o pé. “Doutor, eu estou conseguindo mexer os dedos!”. O engraçadinho respondeu: “Que bom que não vamos operar unha encravada, né?” Um tempo depois, estava tudo adormecido.

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Senti uma mão afagando minha cabeça e pensei que as enfermeiras eram bem carinhosas. Mas depois vi que era meu marido, que tinha entrado e eu nem percebido. Ah, todo mundo fica igual com aquelas roupas e máscaras! Ter ele ali fez toda a diferença, me deu muita segurança. Que bom ter virado lei a presença de um acompanhante durante o parto!

Com o Douglas perto e toda a equipe pronta, começaram a cirurgia. Foi muito rápido, eu lembro de um cheiro forte de queimado e depois, um instrumento me “cavando”,  foi essa a sensação. “Finalmente verei nosso filho!”, pensava sem parar. Essa expectativa do encontro é muito intensa. “Ele está vindo” disse a obstetra, “pode abrir a janela para a família”.

A sala gelada, os equipamentos esterilizados, as luzes sobre a barriga, os rostos mascarados… Não dá pra negar, ter um filho cirurgicamente é frio, bem diferente caso pudéssemos seguir o curso da natureza. Mas no meio daquele ambiente gelado, eu ouvi um choro. Um choro forte, um grito de vida. E ali naquele iglu, eu conheci o maior calor do mundo: que queimou meu peito e extravasou em forma de lágrimas. Eram 17:57 quando nascemos! Ele como bebê e nós como pais.

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Trouxeram o Bernardo para perto de mim e quando eu falei com ele, parou de chorar. aquilo foi incrível, lembrei das tantas vezes que conversamos no escuro enquanto ele estava na barriga e agora podíamos nos ver. Disseram que cheiro de filho é a coisa mais pura que existe e é verdade. Depois desse contato, o levaram para a janela para minha família conhecer.

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Olhei para o lado e vi todos os meus queridos emocionados, sorrindo para o Bernardo sem parar. Ali estavam minha mãe, irmãs, tia, sogra, cunhada e sobrinhas. Fiquei feliz pela família que eu nasci e pela que escolhi, todos nos apoiando e recebendo o bebê com todo o carinho do mundo.

E foi assim, na frieza de uma sala cirúrgica que fui aquecida pela presença de uma criança , pela esperança de um ciclo que inicia e por conhecer um amor sem limites.

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“Cantem ao Senhor um novo cântico, pois ele fez coisas maravilhosas; a sua mão direita e o seu braço santo lhe deram a vitória!” Salmo 98.1

24 Comments to “Sobre iglus e cesarianas – Relato do meu parto”

  1. Lindo e emocionante Cá! bjo

  2. lindo demais muito gostoso saber o quanto seu bebe foi querido Parabéns Cá!

  3. Nunca havia lido um relato de pré-parto, parto e pós-parto tão lindo e tão comovente e rico em detalhes como esse. Que lindo Cá! Parabéns.. pelo “relato” e história maravilhosa que compartilha com a gente. Que Deus abençoe essa vida tão preciosa e essa linda família que nasceu no dia 02 de outubro de 2013!

  4. Emocionante, Camila. Gosto de ler o que você escreve sempre me emociono. Parabéns!

  5. Lindo Ca…..É demais essa sensação antes durante e depois do nascimento….bjusss

  6. Ai Ca! Quem tá chorando sou eu!!! Kkkkkkkk

  7. Adorei, muito emocionante Ca!!!

  8. Você continuou com aquela Doutora do começo?

  9. Nossa que lindo,rs, emocionante e caloroso é o amor.

  10. lLndo amiga, amei o relato, vcs serao muito felizes com a graca de Deus.

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